CriançaSemRisco

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Crianças que não brincam na fantasia

Os acontecimentos recentes de violência envolvendo jovens no Porto são acima de tudo sintoma de uma política de protecção de infância pouco eficaz e desligada da saúde mental. Não basta pensar que dar um tecto, alimentação e permitir o acesso ao ensino básico a uma criança em risco chega para a proteger e levá-la a um bom desenvolvimento. É necessário um olhar mais técnico, pormenorizado, e que leve em conta o desenvolvimento e estruturação da personalidade da criança.
Qualquer criança em risco é uma criança que num determinado momento da sua vida viu o seu vínculo com os pais ameaçado ou quebrado. Viu igualmente a estabilidade da família ameaçada por histórias de abuso e negligência que sedimentam na criança a fantasia de que nenhum lugar é seguro. Estas crianças crescem a margem do amor e da segurança emocional, crescem sem conhecer um espaço onde se possa brincar aos polícias e ladrões, sem ninguém verdadeiramente morrer.

São estes os jovens que quando amontoados, aos 50 e 70, numa instituição de acolhimento, se perdem. Não se encontram enquanto pessoas adultas responsáveis com capacidade de reflectirem nos seus comportamentos. Permanecem imaturos, brincando aos polícias e ladrões, justiceiros de rua, com armas e pontapés de verdade.

Estas crianças não brincam na fantasia, brincam na realidade, e por isso magoam-se e magoam de verdade, lembrando que outrora alguém as feriu na fantasia.

PVS