CriançaSemRisco

quarta-feira, 25 de março de 2009

Aprender de forma experiencial

Uma das coisas que melhor caracteriza o modelo da Tavistock é a capacidade de criar espaços e ambientes de aprendizagem sem existir a necessidade da construção de relações de ensino directivas do tipo "eu falo e tu ouves". A Tavi é exactamente conhecida pela capacidade de colocar os seus formandos a pensar e a viver um conjunto de situações emocionalmente exigentes que obrigatoriamente levam à aprendizagem.

Ontem pude verificar que o modelo de Group Relations, da conferência, pela ausência de apresentações téoricas (método expositivo) e pela não directividade que encerra, assusta muita gente. Ansiedade que ao longo do dia se vai transformando em motivo de análise e reflexão numa cultura aberta de análise por parte do grupo alargado e dos diferentes sub-grupos.

Ontem aprendi bastante sobre exercício de autoridade, negociação e representatividade. Levataram-se questões pertinentes de legitimidade em grupos e de organização de sistemas de decisão.

Hoje o trabalho continua...

Não paro de imaginar como ganharíamos tanto em Portugal se tivéssemos um modelo de formação tão rico.

PVS

segunda-feira, 23 de março de 2009

Perigos na net

Já cheguei a Londres e já estou online... vantagens de um mundo cada vez mais interligado. Ah! E já tive tempo de deixar uma mensagem no Twitter no decorrer do meu passeio em Regent Street hoje à tarde.

Mas afinal o que é que o meu post tem a ver com crianças em perigo?

O meu passeio pelas ruas de Londres fez-me perceber que cada vez mais os nossos adolescentes são semelhantes e partilham uma "global culture" na qual as redes sociais Hi5, Facebook e outras se tornam veículos de comunicação e transmissão de valores. Nestes redes milhares de jovens encontram outras pessoas com quem se identificam e com quem partilham experiências boas e más.

A internet transformou-se num palco relacional gigante onde se jogam todo o tipo de valores e ideias e nesse sentido é um maravilhoso mundo novo no qual podemos crescer ou violentamente morrermos atrás de pensamentos destrutivos.

Não podemos deixar de pensar no impacto positivo de programas como o E-escolas ou E-escolinhas. Contudo preocupa-nos imenso a atitude leviana de entregar computadores com acesso à internet a crianças e jovens com perturbações emocionais e do comportamento, e com pouco ou nenhum contexto emocional contentor. E cuidado com o discurso da igualdade de oportunidades: um computador por criança independentemente do seu background poderá ser imensamente perigoso.

PVS

domingo, 22 de março de 2009

Quatro dias em aprendizagem

Nos próximos 4 dias vou estar por Londres e por isso é provável que não actualize o blog. Irei frequentar uma conferência experencial sobre o trabalho interinstitucional e em parceira na área de protecção de crianças. Depois darei feedback aqui no blog.

PVS

domingo, 15 de março de 2009

Workshop em acolhimento terapêutico com David Millar


A Labirintos Coloridos Consultores está a organizar um workshop sobre acolhimento terapêutico de crianças e jovens em perigo.

O workshop será dinamizado por David Millar, responsável pela Foundation Degree da Universidade de Essex em acolhimento terapêutico.

O workshop será dia 9 de Maio no IPJ em Lisboa. Poderá consultar o programa e mais informação aqui.

PVS

quinta-feira, 12 de março de 2009

Baby P

O relatório relativo à morte de Baby P será hoje apresentado no Reino Unido como noticia a edição de hoje do jornal Público. Aparentemente as conclusões apontam para dificuldades burocráticas e problemas de comunicação ao nível da articulação das diferentes entidades parceiras que intervêm no sistema de protecção.

A ser assim, surgem uma série de questões ao nivel de gestão e liderança de parcerias que trabalham com variáveis emocionais e de risco, como é o caso das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens.

Aguardamos atentamente pela publicação do relatório, e o mais cedo possível iremos colocar um link neste blog para o documento.

PVS

Abuso sexual

Infelizmente esta semana veio a público mais um caso de abuso sexual intrafamiliar com contornos graves. Esta é uma das formas mais traumáticas de maus-tratos No caso concreto, independentemente dos contornos do abuso que desconhecemos, o sistema de justiça decidiu pela prisão preventiva dos progenitores (aparentemente indiscutível), o que introduz uma separação entre a criança e a família que deve ser levada em conta por quem tem a função de proteger a criança.

O que devemos manter presente é que, independentemente dos contornos do abuso sexual, permanece a necessidade de se trabalhar a dinâmica familiar.

Se negligenciarmos o trabalho de reorganização e de luto da dinâmica familiar não dando oportunidade à criança de pensar o que aconteceu, teremos somente uma criança parcialmente protegida. A criança fica protegida do abuso sexual mas permanece exposta a uma história que não compreende, normalmente regida por uma dinâmica de secretismo, dificilmente verbalizável. É esta história incompreensível para a criança que tem de ser alvo de intervenção por parte de equipas terapêuticas especializadas de forma a protegerem o desenvolvimento psico-emocional da criança.

O trabalho terapêutico que tem como objectivo ajudar a criança a dar sentido à experiência de abuso, na opinião de Tilman Fürniss, é mais eficaz se, por um lado, existir um envolvimento da família no plano terapêutico e, por outro, se a criança puder beneficiar de intervenção terapêutica de grupo. Possivelmente o leitor poderá interrogar-se sobre esta prática, nomeadamente se tiver bem presente a dimensão íntima deste tipo de abuso. Tilman Fürniss argumenta, e na nossa opinião com razão, que a dinâmica relacional do abuso sexual é caracterizada pela existência de uma dinâmica de secretismo que encerra em segredo a dinâmica relacional. Por esta razão as crianças com história de abuso sexual aprendem não só a não falar das relações, como aprendem a gerir as relações afectivas “à porta fechada”, sob um jogo que não é publicável. É este jogo “à porta fechada” que é importante ser desafiado no processo terapêutico com crianças abusadas para que elas aprendam a naturalidade do convívio relacional em espaços sociais.

A intervenção terapêutica um para um, por mais eficaz que seja, replica em certa medida o contexto de secretismo na medida em que coloca a relação da porta do consultório para dentro, criando um espaço de alguma forma secreto. Em contraposição, a intervenção terapêutica de grupo ganha uma riqueza especial por quebrar com a dinâmica dual da relação do secretismo, colocando a gestão dos conflitos sociais numa arena de grupo, na qual a criança poderá reaprender a viver num espaço social e a restaurar os sentimentos de pertença.

E a família? Trabalhar como uma família onde ocorreu uma história de abuso sexual não é fácil. Desde logo existe a um conjunto de questões emocionais que são internas aos técnicos que devem ser acauteladas de forma a não contaminarem negativamente a intervenção. Quem trabalha nesta área deve obrigatoriamente reflectir sobre o impacto que a temática tem no seu íntimo e sobre as formas defensivas que adopta quando confrontado com o abuso sexual. Só após um bom trabalho de auto-análise é que o técnico poderá ir para o terreno e iniciar um trabalho com a família.

O abuso sexual intrafamiliar implica sempre uma quebra dos papéis da família e da estrutura geracional. A criança é como que repescada ao seu mundo infantil, sendo colocada num cenário e numa interacção adulta provocando a excitação do adulto abusador e a concretização do abuso.

Neste sentido, o abuso é sempre contextual e relacional.

É esta relação e contexto que ao longo do tempo vão sendo interiorizados pela criança levando tragicamente a um conjunto de aprendizagens relacionais abusivas. São estas aprendizagens que necessitam de ser alvo de intervenção; caso contrário, existe uma grande probabilidade da criança mais cedo ou mais tarde voltar a construir relações sociais reguladas pelo mesmo modelo abusivo. Quem já trabalhou com crianças abusadas sabe que existe um grande número de crianças que na entrada da adolescência erotizam exageradamente as relações, não conseguindo casar amor com sexualidade.

Ainda sobre o trabalho com a família, é necessário realizar pelo menos uma leitura conjunta da história do abuso, separando-se a dimensão adulta de parentalidade da dimensão da sexualidade (orientada para o parceiro adulto). A criança tem que compreender a diferença entre relação cuidadora e relação sexual. Só compreendendo esta diferença é que a criança poderá mais tarde, quando for adulto, não replicar o modelo aprendido.

PVS

terça-feira, 10 de março de 2009

Stop Corporal Punishment


A Euronet lançou uma nova campanha de prevenção do castigo físico. Visite o site e colabore aqui.

PVS

segunda-feira, 9 de março de 2009

Acolher bem é acolher bem as famílias

Uma prova do aumento da maturidade do nosso sistema de protecção é a progressiva defesa do bom acolhimento das famílias nas instituições que acolhem crianças como é o caso dos CAT (Centros de Acolhimento Temporário).

Infelizmente até há bastante pouco tempo imperou uma lógica maniqueísta na qual a família era sempre tida como a má da fita de quem se tinha de separar o mais possível a criança. É esta mesma lógica que explica a emergência de sucessivos centros de acolhimento em zonas rurais distantes dos centros urbanos e com poucas acessibilidades ao nível de transportes. Aliás, vigorou até há algum tempo a prática perversa de colocar as crianças pequenas longe da família, criando situações de abandono forçadas pela geografia. Quantos pais do centro e norte do país viram os seus filhos colocados no Algarve ou noutros distritos, impossibilitando-lhes de imediato o bom acompanhamento? Estou certo que muitos.

Felizmente cada vez mais as instituições percebem que acolher bem uma criança é acolher a sua história e principalmente as pessoas que lhe são significativas, isto é, a família. Só assim a instituição evita a traumatizarão secundária e tem a oportunidade de poder verdadeiramente avaliar a qualidade do vínculo familiar de forma a delinear um cuidado projecto de vida.

Parabéns às instituições que sabem que o mundo é feito de muito mais cores e tons e não de simples preto e branco.

PVS

sábado, 7 de março de 2009

Magalhães e os pseudoriscos

A notícia do dia é a existência de erros ortográficos num dos programas da versão OpenSource do computador Magalhães. Notícia que é apresentada em tom trágico e verdadeiramente desproporcionado, só compreendido pela dimensão política que o projecto do Magalhães tem tido.

Contudo devemos sublinhar uma das dimensões que nos parece mais inovadora no projecto do Magalhães e que infelizmente se vê colocada em causa com esta recente polémica... Quem já ligou um computador Magalhães sabe que de forma inovadora este computador vem com dois sistemas operativos, o Windows da Microsoft e o Linux (Caixa Mágica).

A maioria das famílias e dos cidadãos possivelmente não valoriza muito esta dimensão do projecto. Contudo esta parece-nos ser uma das dimensões economicamente mais estratégicas do projecto. Todos nós, nas últimas duas décadas nos habituámos de forma quase dependente ao Windows e a um conjunto de programas de Microsoft para realizar um conjunto de operações informática básicas como editar um texto, enviar um mail, ou consultar uma página web.

O que nos esquecemos frequentemente é que o Windows é um programa não gratuito, dependendo a sua utilização de um pagamento de uma licença à Microsoft, situação que obriga todos os estados europeus a pagarem milhões de euros anualmente à Microsoft, contribuindo negativamente para o saldo da balança tecnológica europeia.

O projecto Magalhães pela sua dimensão de abrangência universalista e por se dedicar a uma população que está a iniciar-se no mundo das novas tecnologias, encontra-se numa posição estratégica para promover o software OpenSource, isto é software com código fonte aberto, e por essa razão, livre de pagamento de licença de utilização como é o caso do Sistema Operativo Linux. A promoção do Linux, e em particular da distribuição nacional Caixa Mágica, é um caminho estratégico para que de aqui a alguns anos Portugal e a Europa conquistem uma independência face aos Estados Unidos em termos de software.

Óbvio que lamentamos os erros ortográficos da versão Linux mas não podemos deixar de saudar a estratégia de inclusão da Caixa Mágica no projecto do Magalhães.

PVS

Seminário Expo Criança "Acolhimento Residencial + Acolhimento Familiar"

O Seminário "Acolhimento Residencial + Acolhimento Familiar - Tudo é Bom Quando se faz Bem" da responsabilidade do Centro Distrital de Segurança Social de Santarém, no âmbito da Expo Criança 2009, surpreende pela inovação do discurso na área da protecção.

Pela primeira vez observamos uma paridade entre as duas modalidades de acolhimento de crianças, sem preconceitos nem fanatismos, o acolhimento familiar ao lado do acolhimento residencial,as duas medidas a caminho da especialização e do acolhimento terapêutico.

Com agrado vimos ser afirmado que um sistema de protecção só baseado na adopção como resposta alternativa ao crescer no seio na família biológica é um sistema redutor e discriminatório, atentos ao facto de que só uma minoria de crianças é adoptável.

O tom do seminário ficou ainda mais enriquecido quando ouvimos o discurso ousado de Ana Moutinho - que subscrevemos na totalidade - no qual se afirma que acolher uma criança deve ser acompanhado sempre por um "bom acolhimento" da sua família, mesmo quando não se prevê o regresso da criança à família.

PVS

sexta-feira, 6 de março de 2009

Novos artigos sobre o trabalho da The Mulberry Bush School

Colocámos online dois novos textos de reflexão sobre o trabalho da comunidade terapêutica para crianças The Mulberry Bush School. Sendo textos recentes de John Diamond, actual CEO da instituição, transmitem de uma forma clara o trabalho desta escola com crianças com dificuldades emocionais, sociais e do comportamento.

Chamamos a atenção para o texto "Therapeutic environments - What helps, what hinders?" onde são discutidos os factores que ajudam e dificultam o trabalho nesta comunidade.

Os textos encontram-se aqui. Boas leituras.

TSM

quinta-feira, 5 de março de 2009

Escolas de 2.ª Oportunidade

O insucesso e o abandono escolar são um dos grandes riscos da crianças da nossa sociedade. Num tempo em que os modelos económicos mudam rapidamente e existe uma progressivo apelo às qualificações técnicas da população activa, a escola enquanto instituição qualificante volta a estar no topo das prioridades.

Trabalhar com crianças que falharam sucessivamente na escola por diversas razões e que não encontram dentro delas a estabilidade emocional que alimente com naturalidade a curiosidade sobre o mundo, é trabalhar com crianças que necessitam de uma escola adaptada. A E2C-Europe é uma rede europeia de escolas de segundas oportunidades na qual se agrega a massa crítica das boas práticas. Vale a pena explorar.

PVS

quarta-feira, 4 de março de 2009

IV Colóquio Europeu de Psicologia e Ética - Psicologia e Direitos Humanos


TSM

Toquinho - Aquarela

Para iniciar o dia com optimismo e esperança...



Composição: Toquinho / Vinicius de Moraes / G.Morra / M.Fabrizio

"Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo

E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo...

Corro o lápis em torno
Da mão e me dou uma luva

E se faço chover
Com dois riscos
Tenho um guarda-chuva...

Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho
Azul do papel
Num instante imagino
Uma linda gaivota
A voar no céu...

Vai voando
Contornando a imensa
Curva Norte e Sul
Vou com ela
Viajando Havaí
Pequim ou Istambul

Pinto um barco a vela
Branco navegando
É tanto céu e mar
Num beijo azul...
Entre as nuvens
Vem surgindo um lindo
Avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar...
Basta imaginar e ele está
Partindo, sereno e lindo
Se a gente quiser
Ele vai pousar...

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida...

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo...

Um menino caminha
E caminhando chega no muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente
O futuro está...

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá...

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
(Que descolorirá!)

E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo
(Que descolorirá!)

Giro um simples compasso
Num círculo eu faço
O mundo
(Que descolorirá!)...
"

PVS

terça-feira, 3 de março de 2009

Life Story Work... dois livros a não perder!

Quem já trabalhou em processos de adopção de crianças em idade escolar sabe como é importante a realização de um intenso trabalho de luto que permita à criança a reorganização do seu mundo interno e em particular da sua história de vida.

Esta é um trabalho minucioso de natureza terapêutica que pode ser auxiliado por um conjunto de técnicas psicopedagógicas que podem ser trabalhadas em contexto de acolhimento.

Existem dois livros sobre trabalho de história de vida particularmente interessantes:

Rose, R. & Philpot, T. (2005). The Child's Own Story: Life Story Work with Traumatized Children. London: Jessica Kingsley Publishers.