CriançaSemRisco

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Manual de Processos-Chave para Centro de Acolhimento Temporário

Durante esta semana tenho dedicado algum tempo ao Manual de Processos-Chave referente aos centros de acolhimento de temporário (CAT), um documento de leitura obrigatória e de cumprimento mínimo por todas as instituições verdadeiramente responsáveis pelas suas crianças (disponível para download aqui).

Contudo uma análise cuidade obriga a reconhecer que um centro de acolhimento mediano precisa de muitos, muitos, muitos mais recursos do que os habituais, nomeadamente em termos de edificado e de recursos humanos.

Parabéns ao ISS pelo bom manual que obriga os CAT tornarem-se verdadeiros centros de diagnóstico.

PVS

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Formação em acolhimento de crianças

Irá iniciar-se no ISPA no dia 4 de Junho a 3a Edição do Curso "Acolhimento de Emergência de Crianças em Risco". O curso foi revisto: agora tem menos horas, é mais conciso e económico. E existe uma boa novidade: a frequência deste curso, juntamente com a frequência de outros três na área do acolhimento, confere um Certificado Avançado em Acolhimento de Crianças.

Poderão saber mais informações através do flyer da acção de formação ou contactando o Departamento de Formação Permanente do ISPA.

Esta formação será uma excelente oportunidade para todos os que querem pensar os novos paradigmas de acolhimento de crianças, nomeadamente o acolhimento terapêutico.

Inscrevam-se!

PVS

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abordagem Systems-Psychodynamic

O trabalho de consultoria que temos desenvolvido em diversas instituições sociais tem por enquadramento teórico o que hoje se designa por abordagem Systems-Psychodynamic. Algumas pessoas tem solicitado alguns esclarecimento sobre esta abordagem que cruza conhecimentos vindo da teoria sistémica e da Psicanálise.

A origem do termo Systems-Psychodynamic é associado muitas vezes à publicação do livro de Eric Milles e A.K. Rice "Systems of Organization" em 1967. Contudo os autores nunca utilizam o termos para definir a sua abordagem teórica. Segundo Amy Fraher (2004), só no final dos anos 80 é que Eric Miller, na altura director do programa de Group Relations do Instituto Tavistock, cunhou o termo.

No início de 1992, no âmbito de uma redefinição estratégica do Instituto Tavistock, Eric Miller propõe que o conceito Systems-Psychodynamic seja aprofundado e desenvolvido, constituindo para isso uma equipa de investigadores e consultores organizacionais. Wesley Carr, Tim Dartington, Olya Khaleelee, Isabel Menzies Lyth e Jean Neumann, são alguns dos nomes que estiveram envolvidos no processo de desenvolvimento e consolidação desta abordagem, tornando-a uma referência internacional no mundo académico e organizacional.

O termo Systems-Psychodynamic foi-se afirmando ao longo dos anos 90 integrando abordagens sistémicas e psicodinâmicas de forma a gerar novos entendimentos sobre o comportamento individual, comportamento de grupos e comportamento organizacional. A integração foi sendo realizada tendo por base um modelo de investigação-acção, alicerçado nas experiências práticas das conferências de group relations e através da experiência obtida em projectos de consultoria organizacional.

Podem aprofundar um pouco mais este tema no artigo de Amy Fraher "Systems Psychodynamic: The Formative Years of an Interdisciplinary Field at the Tavistock Institute".

PVS

terça-feira, 21 de abril de 2009

A vontade de deitar fora

Quem trabalha em acolhimento de crianças sabe que por vezes desenvolve-se a sensação na equipa educativa que, se o “João” ou o “Luís” não tivessem sido acolhidos naquele lar ou centro de acolhimento, tudo corria às mil maravilhas. O fenómeno de “bode expiatório” existente em qualquer grupo é particularmente incidente em grupos de forte tensão emocional, como é o caso dos grupos de crianças acolhidas com perturbações emocionais. Existe uma tese de mestrado online intitulada: If only you exclude “Ben” we would be able to work with others just fine! escrita por John Tuberville que vale a pena ser lida.

PVS

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Crianças acolhidas... sem diagnóstico e sem pais

Continuo intrigado pela dificuldade que existe no nosso sistema de protecção em desenvolverem-se respostas de acolhimento temporário ou de emergência que sejam verdadeiros centros de avaliação diagnóstica orientados para a saúde mental da criança.

Vasculhando alguns livros do Eduardo Sá já com alguns anos, verifico que ele já falava há uns tempos da necessidade de criarem-se verdadeiros serviços de urgência um pouco à semelhança dos serviços de urgência hospitalares. Eduardo Sá defendia serviços ricos em recursos técnicos e de diagnóstico capazes de em poucas horas estancarem a hemorragia que uma retirada do meio familiar provoca sempre numa criança e avaliarem as competências da família de forma a desenharem de imediato um plano de intervenção.

Com pena verificamos que continuamos a cair numa dicotomia de bons e maus pais e numa visão simplista que vê o acolhimento como uma espécie de salvação onde as crianças são salvas pelo afastamento da família.

Há alguns anos que os hospitais pediátricos, atentos aos trabalhos de Bowlby sobre a vinculação e em particular a um filme realizado por James Robertson, um psiquiatra da Clínica Tavistock, intitulado "A Two Year Old Goes to Hospital" (1952), mudaram por completo o modelo organizacional dos serviços de Pediatria. Hoje em dia qualquer serviço de Pediatria aprendeu a viver com os pais dia e noite, e passou a proteger a saúde mental da criança colocando preferencialmente a seu lado a sua figura de vinculação.

O que é curioso é que a mesma teoria que serviu de base à mudança nos Serviços de Saúde, e que hoje é indiscutível, seja completamente negada no sistema de protecção. Um bom exemplo disso são os centro de acolhimento em que os pais só podem agendar uma hora de visita por semana às crianças e que não permitem que os pais acompanhem as crianças nas suas rotinas.

PVS

sábado, 18 de abril de 2009

Crianças inquietas na escola

Encontra-se hoje no Público online uma notícia acerca do encontro promovido pela Casa da Praia que irá decorrer amanhã sobre o tema "Dificuldades de comportamento e aprendizagem em meio escolar". Vale a pena ler pois aborda o tema das crianças com dificuldades emocionais e do comportamento, e a sua relação com a escola. Ler aqui.

TSM

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Observação de crianças - A Situação Estranha de M. Ainsworth

A compreensão da relação precoce entre bebé-mãe é ainda um dos temas fundamentais da Psicologia. O trabalho de John Bowlby (psicanalista inglês que trabalhou durante largos anos na clínica Tavistock) sobre vinculação assume uma particular importância na compreensão desta relação.

Mary Ainsworth, discípula de Bowlby e investigadora na clínica Tavistock, é responsável pela situação experimental intitulada "Situação Estranha" largamente utilizada para avaliar a qualidade da relação entre criança e prestador de cuidados (geralmente a mãe). Esta situação, composta por várias fases, permite avaliar a qualidade do comportamento de vinculação da criança ao reunir-se com a mãe depois de ter sido brevemente separada desta. O comportamento aquando da reunificação permitiu à equipa de Ainsworth identificar três padrões de vinculação posteriormente alargados para quatro por Mary Main: seguro; evitante; ansioso/ambivalente; desorganizado.

Aqui fica um vídeo do procedimento da "Situação Estranha":



Parece-nos fundamental que sendo os CAT (Centros de Acolhimento Temporário) instituições cuja função essencial é a avaliação das crianças, e necessariamente das suas figuras de vinculação, que estejam preparados para avaliarem os padrões de vinculação das crianças.

A situação estranha é mundialmente utilizada como forma de avaliar os padrões de vinculação e é de fácil aplicação. Necessita, no entanto, de uma sala equipada com um vidro unidireccional.

Mas, caso este investimento não seja realizado, e face à falta de testes aferidos para a população portuguesa e de protocolos de avaliação definidos, receio que muitas das avaliações efectuadas sejam baseadas puramente na intuição dos técnicos. E, se a intuição muitas vezes é importante, não podemos deixar de recordar o título do livro de Adrian Ward, académico de Serviço Social e antigo director de uma comunidade terapêutica para crianças e jovens: "Intuition is not enough" (disponível para leitura aqui).

TSM

quarta-feira, 15 de abril de 2009

4ª Semana da Prevenção dos Maus-Tratos Infantis

A Associação "Chão dos Meninos", em Évora, irá promover a 4.ª Semana de Prevenção dos Maus Tratos, iniciativa extremamente pertinente, numa altura em que ainda subsistem dúvidas e incertezas ao nível da articulação e modelo de intervenção dos diversos agentes do sistema de protecção. Espero que encontrem disponibilidade, vontade e motivação para participarem.

PVS

terça-feira, 14 de abril de 2009

Crianças adoptadas e crianças devolvidas


Ontem num dos telejornais da noite voltou-se a falar sobre as crianças que, em período de pré-adopção, são “devolvidas” às instituições, situação que cria o maior dos perplexos ao comum dos mortais. Os pais esperam tanto tempo e sonham tanto com um filho e depois devolvem-no como se fosse uma encomenda. No mínimo, chocante.

Um olhar mais atento e técnico sobre a construção dos vínculos filiais adoptivos sabe bem que esta situação não é rara e que não depende das boas ou más intenções dos pais adoptivos ou das crianças. Na verdade, construir uma relação não é fácil e existe sempre uma probabilidade de se estabelecerem desencontros mais ou menos irreversíveis. Probabilidade esta que aumenta significativamente com a idade da criança adoptiva e com a história relacional que ela carrega e transporta para a nova família. Não raras vezes observamos crianças que viveram histórias extremamente violentas, marcadas por abusos e negligências, a transportarem de forma “crua” essa mesma violência para a relação com os novos pais. Os pais adoptivos confrontam-se então com uma criança muito diferente da imaginada, principalmente quando existem fantasias por parte dos pais de que a criança ficará grata pela disponibilidade do casal adoptante. As crianças vítimas de maus-tratos com frequência tem dificuldade em manifestar gratidão nos vínculos amorosos; pelo contrário, são crianças que testam o vínculo, forçando-o, esticando-o até ao limite para verificar, no extremo, a sua consistência.

Adoptar crianças vítimas de maus-tratos e com histórias marcadas por violência necessita sempre de um trabalho continuado de apoio à nova família e à construção de novos modelos de vinculação. Abandonar crianças com casais adoptantes numa lógica simplista do tipo "tudo vai correr bem", resulta por vezes num "tudo correu mal".

Fica o conselho de um excelente livro da Tavistock, o "Creating New Families", editado por Caroline Lindsey (disponível para leitura no Google Books aqui).

PVS

sábado, 11 de abril de 2009

Recordar Isabel Menzies Lyth

Isabel Menzies Lyth foi uma das autoras que mais influenciou a área das instituições terapêuticas para crianças e jovens com um conjunto de artigos a documentar o seu trabalho de consultoria.

Estes artigos foram posteriormente publicados em colectânea no seu livro "Containing Anxiety in Institutions", editado em 1988 pela Free Association Books.

Trabalhando durante longos anos como consultora em várias instituições para crianças e jovens com dificuldades emocionais e do comportamento, alguns dos seus textos sobre esta temática rapidamente se tornaram clássicos.

O seu trabalho na Comunidade Terapêutica Cotswold merece ser lido com atenção, principalmente o seu trabalho com a equipa da comunidade e a forma como em conjunto alteraram a forma de funcionamento.

No seu texto de 1985 "The development of the self in children in institutions", Menzies descreve o processo de consultoria e como este ajudou a definir os limites da instituição de forma a ajudar as crianças a terem uma sensação de contenção. Este texto é ainda essencial por abordar temas tão importantes quanto autoridade e limites.

Falecida no início de 2008, o trabalho de Menzies continua a ser tão relevante hoje como no dia em que foi publicado. Aproveitamos para deixar um link para um resumo do seu trabalho publicado no Independent.

TSM

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ainda a aprender de forma experiencial

A continuação da formação na Tavistock foi excelente. Superou de longe as minhas melhores expectativas. A dinâmica de grupo estabelecida na "organização temporária de aprendizagem" permitiu testar vários fenómenos de grupo e de trabalho em parceria. Ficou bastante claro a relação entre a tomada de uma posição - responsabilidade - e consequências, e como este processo é particularmente difícil quando as nossas acções são determinantes para a vida de terceiros.

Valeu muito esta formação!

A boa notícia é que esperamos ainda no decorrer deste ano ou início do próximo realizar em Portugal uma formação experiencial semelhante para profissionais do sistema de protecção. Se achar a ideia interessante, envie um mail pois é importante termos uma percepção da recepção deste tipo de formação.

PVS