CriançaSemRisco

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passo a Passo na direcção do Acolhimento Terapêutico

O acolhimento terapêutico em Portugal está a ganhar progressivamente um certo dinamismo, é verdade que ainda não existe nenhuma instituição de acolhimento verdadeiramente terapêutica, contudo parecem existir evidências que muitos dos profissionais da área estão a desenvolver um esforço substancial para transformar o ethos das instituições de acolhimento no sentido de serem verdadeiros espaços de crescimento em saúde mental.  
Uma das questões que frequentemente me têm colocado muito directamente é o que afinal Acolhimento Terapêutico. Uma resposta muito directa e simples: O Acolhimento Terapêutico é todo o acolhimento que é orientado para o Bem-estar em termos de Desenvolvimento e Saúde Mental. A resposta aparentemente simples e generalista complexifica-se bastante quando pensamos que a população que cada vez mais chega ao acolhimento institucional é composta por crianças verdadeiramente traumatizadas e desestruturadas por uma colecção de experiências de abuso e negligência. Crianças que viram a sua linha de desenvolvimento relacional ser descontinuada por acções abusivas ou por omissões graves que abriram vazios difíceis de serem preenchidos. As crianças que hoje chegam às nossas instituições de acolhimento por via do Sistema de Protecção são sem sombra de dúvida crianças com uma enorme necessidade de encontrarem novos modelos de relação e com a urgência de realizarem um forte processo de luto que lhes permite ultrapassar um conjunto de vivências traumáticas.
Acolher Terapeuticamente, é talvez, em primeiro lugar criar as condições “no meio”, (espaço social e físico de acolhimento) um ambiente que promova o reescrever a história relacional, permitindo a construção de vínculos seguros, o trabalho de luto e a possibilidade de as crianças recuperarem uma noção de continuidade histórica que lhes permite tolerar as frustrações do presente e projectarem-se no futuro.
Estas duas semanas em Portugal assistimos a dois bons momentos formativos que nos obrigam a pensar o Acolhimento Terapêutico. O workshop de Tilman Furniss, sobre trabalho com jovens agressores sexuais e o workshop da Mulberry Bush, sobre acolhimento terapêutico. Duas acções que se conjugam na perfeição, no exercício de pensar espaços nos quais as crianças recuperam a noção de identidade e consequentemente a possibilidade de voltarem a gerirem a sua responsabilidade.

Pedro Vaz Santos
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