CriançaSemRisco

sábado, 26 de junho de 2010

Fechar uma porta.

Chegou ao fim a minha passagem pela Misericórdia de Santarém. Fecha-se uma porta, quase nove anos, de aprendizagem constante. Aprendi com todas crianças, jovens, famílias e colegas que diariamente me desafiaram a pensar e a conter uma panóplia quase infinita de emoções e “life events” difíceis de imaginar. Talvez a aprendizagem mais importante de todas ficou bem sintetizada esta semana quando ao encerrar a intervenção com uma família, numa reunião alargada com a CPCJ e a Família, a Ana (minha colega de sempre), encerrou o trabalho com um obrigado à família por nos ter deixado entrar na sua privacidade relacional e nos ter deixado ao longo de três meses aprender com eles, sobre o que é ser pai, mãe, filho e família.

O obrigado expresso pela Ana é o melhor exemplo de como com ela e com a nossa restante Equipa, Famílias e Crianças aprendemos a respeitar infinitamente todas as famílias, mesmo aquelas capazes de abusarem e negligenciarem os seus filhos.

Não pensem que respeitar infinitamente as famílias é sinónimo de afirmarmos que concordamos com tudo o que ocorre no seio das famílias e que aceitamos todos os comportamentos. Pelo contrário o respeito que fomos aprendendo a ter ajudou-nos, a distinguir e a diferenciar o que são comportamentos inaceitáveis de pessoas inaceitáveis. Um abuso físico violento não é um comportamento aceitável  em nenhuma situação por colocar uma criança em perigo emocional e físico. Mas qualquer pessoa independentemente do seu comportamento é mais do que as suas acções, é um ser humano com uma história que o contextualiza e que parcialmente o determina e que nesse sentido histórico, merece todo o respeito.

Aceitar as pessoas para além dos seus comportamentos (mesmo não aceitando os seus comportamentos) deixou de ser ao longo destes nove longos anos de aprendizagem, difícil de fazer. Por isso caros amigos, podem muito bem imaginar que não só aprendi imenso, como aprendi coisas dificílimas no trabalho diário de um Centro de Acolhimento Temporário e de um Lar de Infância Juventude.

Um OBRIGADO gigante a todos!!!!!

Pedro Vaz Santos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus à SCMS

Caros amigos já é oficial iniciei o meu processo de transição e mudança de área de trabalho. No final do mês vou deixar a Santa Casa da Misericórdia de Santarém e a área do acolhimento residencial para aceitar a direcção de dois novos projectos na Fundação “O Século”, em São Pedro do Estoril Cascais (ainda em semi-segredo).


Fechar a porta a quase nove anos de trabalho na Misericórdia não é fácil, ficam muitos bons momentos, muitas vitórias de alegria, muitos projectos de vida concretizados, obviamente também ficam muitos projectos por concretizar e muitos sonhos que não chegaram a tornar-se realidade.

Mais importante fica um universo de aprendizagens de valor incalculável. Aprendizagens que devo às crianças, jovens, famílias e colegas com quem tive a oportunidade de trabalhar e de aprender.

Pedro Vaz Santos

terça-feira, 8 de junho de 2010

Visita Glebe House

Amanhã iniciamos juntamento com oito colegas a nossa visita anual a uma instituição de acolhimento de crianças de renome. A visita este ano é à Glebe House, uma Comunidade Terapêutica de jovens, perto de Cambridge do Reino Unido que acolhe jovens com história de transgressão sexual.

A Glebe House oferece um plano terapêutico, em regime residencial, intenso durante dois anos, e constitui-se com uma verdadeira alternativa às intervenções mais punitivas das Unidades Seguras (equivalente aos Centros Educativos).

Durante a visista irei colocar alguns posts e comentários via twiter podem seguir em: http://twitter.com/vaz_santos.

Pedro Vaz Santos

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Conferência “Child neglect: parenting issues and its impact on children” (17 Junho)

No próximo dia 17 de Junho a Professora Jan Horwath participará na conferência “Child neglect: parenting issues and its impact on children”, no âmbito do Doutoramento Inter-Universitário Coimbra-Lisboa em Psicologia (Psicologia da Família e Intervenção Familiar), na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

Jan Horwath é professora e investigadora de Child Welfare no Department of Sociological Studies da University of Sheffield (UK). Com formação de base em Serviço Social, trabalhou vários anos como social worker no Reino Unido e na Nova Zelândia. O seu trabalho como investigadora tem apoiado o desenvolvimento de vários sistemas de protecção de crianças e jovens (e.g. Irlanda, Austrália), e o seu livro “The Child’s World” é uma referência em Inglaterra como ferramenta de apoio à implementação do Framework for the Assessment of Children in Need and their Families.


A conferência do dia 17 é de entrada livre mas devido a questões logísticas, pede-se aos interessados que enviem um email a confirmar a presença à Professora Doutora Maria Teresa Ribeiro (mteresaribeiro@fp.ul.pt).

Para mais informações, clicar aqui.

ADC

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia Mundial de Criança

Hoje é dia da Criança, 1 de Junho. Um dia para pararmos e pensarmos enquanto sociedade onde estão as nossas crianças. Num período de turbulência social e económica, não foge ao olhar o facto de as nossas crianças estarem mais sós. Mais tempo longe dos pais, mais tempo longe da família, mais tempo entregues ao cuidados de instituições: creches, jardins-de-infância, escolas, actividades extra escolares. As nossas crianças elementos preciosos por serem cada vez mais raros nas sociedades ocidentais, são confiadas na grande parte do dia a um sistema de multicuidadores que dificilmente se tornam verdadeiramente significativos.


Crescer e aprender a pensar num sistema indiferenciado de figuras humanas que não chegam a ser figuras de referência, é aprender uma cultura de superficialidade no qual o outro é interpretado cada vez mais numa lógica pragmática de prestação de serviços e cuidados e menos numa lógica afectiva e relacional. Facilmente poderíamos cair numa retórica de defesa pelo carácter emocional ou afectivo do papel do Educador de Infância, Professor ou dos profissionais que diariamente acolhem crianças. Não o faremos.

Não acreditamos na ideia que todas as relações são automaticamente substituíveis, não acreditamos que o sorriso de um adulto para um bebé numa creche é igual ao sorriso de uma mãe ou de um pai para esse mesmo bebé. Não acreditamos que um dia cheio de actividades, de cores, de músicas, de estímulos é mais significativo que um colo afectivo que nos pense e contenha as nossas ansiedades. Na verdade acreditamos muito pouco numa cultura no qual as actividades e a estimulação suplantam o colo e o tempo com os pais e figuras significativa.

Ser Mãe ou Pai é um exercício emocional, com uma raiz inconsciente dificilmente palpável por essa razão uma tarefa difícil de ser transferida e alienada. A nossa mãe é sempre a nossa mãe o nosso pai é sempre o nosso pai. É o carácter único, insubstituível que talvez assuste tanto os pais de hoje. Pais que já cresceram numa cultura na qual a “dependência” é olhada como contraponto de autonomia e individualidade e por essa razão sentida como ansiogénica e em alguns casos como claustrofóbica.

Acreditamos que a dependência é fonte de crescimento para as crianças e para os adultos. A dependência lembra diariamente o vinculo e obriga as partes a assumirem a responsabilidade que advém do desempenho único do seu papel.

A dependência lembra diariamente que as pessoas não são substituíveis ao contrário do que por vezes se diz por aí…

Caros amigos gozem bem este dia Mundial da Criança.

Pedro Vaz Santos