CriançaSemRisco

domingo, 4 de julho de 2010

Não há perguntas estúpidas (Carl Sagan)

No meio das (des)arrumações dos últimos dias encontrei uma cópia deste texto perdido há já alguns anos. É uma adaptação, cujo autor desconheço, do capítulo 19 do livro "Um mundo infestado de demónios" de Carl Sagan (versão integral aqui). Valeu a pena (re)lê-lo... Transcrevo-o pois para partilha!

“Quando falo com alunos do ensino secundário sinto, muitas vezes, que eles apenas memorizam ‘factos’. Em termos gerais, a alegria da descoberta, a vida por detrás desses factos, desapareceu. Parece que perderam grande parte da capacidade de se maravilharem e ganharam muito pouco cepticismo. Têm medo de fazer perguntas 'estúpidas', aceitam respostas deficientes, não colocam outras perguntas para esclarecer uma resposta que não os satisfaça. Vêm para a aula com perguntas escritas em papelinhos, que espreitam subrepticiamente enquanto esperam a sua vez, alheando-se do debate em que os seus pares, nesse momento, participam. Alguma coisa aconteceu e não foi apenas a puberdade.

Verifico ainda outra coisa. Muitas vezes, os adultos ficam incomodados quando as crianças fazem perguntas. Respondem com irritação ou então mudam de assunto. Nunca compreenderei por que razão os adultos pretendem passar por eruditos diante de uma criança de seis anos. Qual o problema em admitirmos que não sabemos alguma coisa? A nossa auto-estima é assim tão frágil?

Existem respostas melhores do que fazer as crianças ou os jovens sentirem que fazer perguntas constitui um acto socialmente condenável. Se tivermos uma ideia da resposta, podemos tentar explicar. Uma tentativa, ainda que incompleta, pode ser uma atitude encorajadora. Se não tivermos nenhuma ideia da resposta, podemos consultar uma enciclopédia. Se não tivermos uma enciclopédia, podemos ir a uma biblioteca. Ou podemos dizer ‘Não sei a resposta. Talvez ninguém saiba. Pode ser que quando cresceres sejas a primeira pessoa a descobrir’.

Há perguntas ingénuas, perguntas enfadonhas, perguntas mal formuladas, perguntas precipitadas. Mas todas elas representam um desejo de compreender o mundo. Não há perguntas estúpidas.”

ADC