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terça-feira, 21 de julho de 2009

Filosofia e sistemas sociais defensivos

A propósito do meu anterior post sobre a Antropologia Urbana, como uma das áreas de estudo favoráveis à compreensão "macro-sistemica" de vários fenómenos sociais e humanos, venho hoje também falar em como a Filosofia "à Portuguesa" curiosamente tão bem aborda os fenómenos bem descritos pelo Pedro e pelo Tiago, relacionados com os "sistemas sociais defensivos" utilizados pelas pessoas em contexto laboral (e não só), de forma a "evitarem a experiência consciente de ansiedade" no confronto omnipresente com a "tarefa primária" (a missão; o objectivo primordial; etc.) da organização, provocando entropia e resistencia à mudança. Ora então vejam neste excerto de texto, como é que o nosso Filósofo português José Gil, tão bem descreve no seu belíssimo livro PORTUGAL, HOJE - O Medo de Existir, a prática social defensiva da BUROCRATIZAÇÃO estatal em Portugal:

(...) Num tal sistema, em que a não-acção é a regra, não se imagina um Estado e uma administração sem burocracia. Porque esta constitui o melhor meio de adiamento e paralisação da acção (...), ao adiar indefinidamente o agir, a burocracia toma a aparência da acção, criando a ilusão da sua efectuação. (...) Seria necessário analisar os diferentes tipos de burocracia, nos diversos sectores da vida do Estado, para se ter uma ideia exacta da sua função na nossa sociedade. No entanto, é desde logo claro que quando existe recusa de enfrentamento e condutas generalizadas de evitamentos de conflitos, a burocracia surge como a via que permite ao mesmo tempo exprimir indirectamente a violência conflitual, e impedi-la de se exercer literalmente ou fisicamente. (...) Neste sentido, a burocracia representa uma espécie de sintoma social da recusa do conflito e da acção.

Digam lá se não assenta que nem uma luva quer na teoria invocada em cima, quer em algumas organizações que nós vamos conhecendo?

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