CriançaSemRisco

domingo, 31 de julho de 2005

Scottish Journal of Residential Child Care


Mais um excelente periódico. Este é editado pelo "Scottish Institute of Residential Child Care", este último uma óptima referência de como uma pequena sociedade associada a uma universidade consegue potenciar e explorar um conjunto de boas práticas. Uma boa notícia é a disponibilidade do N.º1 do Vol.1 online para quem quiser fazer download.

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sábado, 30 de julho de 2005

Residential Treatment for Children & Youth


"Residential Treatment for Children & Youth" é uma revista dedicada ao tratamento de perturbações emocionais e do comportamento de crianças e jovens em unidades residenciais (o conceito de "residential treatment" assemelha-se ao conceito de "therapeutic commnunities", este último mais utilizado no Reino Unido). É editado pela American Association of Children's Residential Centers e tem como editores D. Patrick Zimmerman, Sonia Shankman e E. C. Teather.

O acesso é relativamente difícil nas bases de dados electrónicas como a B-On ou a ProQuest; contudo existe sempre a possibilidade de subscrever a revista (ver em http://www.tandfonline.com/loi/wrtc20).

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Child Abuse Review


A "Child Abuse Review" é outro dos periódicos de referência na área do mau trato infantil. Este jornal é editado pela British Association for the Study and Prevention of Child Abuse and Neglect, tendo como editor chefe David Gough.

Neste periódico, por ser europeu, encontram-se artigos mais próximos da realidade portuguesa.

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sexta-feira, 29 de julho de 2005

Xth ISPCAN European Regional Conference on Child Abuse and Neglect


A ISPCAN - International Society for the Prevention of Child Abuse and Neglect está organizar uma conferência científica da maior qualidade em Berlin de 11 a 14 de Setembro de 2005. Clicar aqui para aceder ao link do congresso.

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Child Maltreatment


Fica mais uma sugestão de um excelente periódico científico na área dos maus-tratos infantis. "Child Maltreatment" é editada pela American Professional Society on the Abuse of Children (APSAC). O editor-chefe é Steven J. Ondersma da Wayne State University, Detroit.

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quinta-feira, 28 de julho de 2005

Child Abuse & Neglect (ISPCAN)


A Elsevier Publishers publica regularmente a Revista da Sociedade Internacional para a Prevenção do Abuso Infantil e Negligência (ISPCAN - International Society for the Prevention of Child Abuse and Neglect), a "Child Abuse & Neglect".

Este periódico exclusivamente dedicado à área do mau trato infantil é uma referência para todos os que cientificamente se dedicam ao aprofundamento destas temáticas. A revista é actualmente editada por Jonh Leventhal.

Por forma a ter acesso ao full text da revista, basta consultar a B-On em qualquer estabelecimento de ensino superior aderente.

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segunda-feira, 25 de julho de 2005

Crianças em acolhimento familiar


Numa altura que se volta a falar da revisão da Lei que regula o acolhimento familiar, parece-me interessante a leitura de "Foster children: Where they go and how they get on" de Ian Sinclair, Claire Baker, Kate Wilson e Ian Gibbs. O livro apresenta capítulos como:

3. Going home: Who returns and how do they do?
4. Going home: What makes a difference?
5. Adoption: Who is adopted and how do they do?
6. Adoption: What makes a difference?
7. Foster care: Can it offer permanence?
8. Foster care: Does it feel like a family?
9. Leaving care: What makes a difference?
10. Living independently: What makes a difference?

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domingo, 24 de julho de 2005

Dia aberto no Lar dos Rapazes - Contributo de Joana Simões de Almeida

Recebi hoje um texto de Joana Simões de Almeida bastante simpático sobre a iniciativa "Dia Aberto" promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Santarém no ultimo mês de Maio. Achei que pela pertinência do mesmo deveria aqui ser publicado.

"A propósito da comemoração dos 505 anos de existência da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, a Fundação “O Século” recebeu um original convite do Lar de Rapazes para acompanhar alguns técnicos de instituições do nosso país, para juntos pensar-mos sobre os problemas e as potencialidades da institucionalização de crianças em risco. Foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar, com profissionais de várias instituições que trabalham na área da infância e juventude, e deu-se início a um debate de ideias, rico e organizado. Sendo a temática das crianças em risco extremamente actual, vasta e complexa, a abordagem que se fez baseou-se na experiência dos técnicos que, partindo dos seus conhecimentos e bases teóricas, desenvolvem acções no sentido de modificar os ciclos de degradação e ausência de projectos de vida futuros destas crianças.

A existência de casas de acolhimento de crianças foi descrita como um “mal menor” que se justifica porque a criança ainda se encontra muitas vezes submetida a uma autoridade excessiva por parte dos adultos, autoridade esta que frequentemente se traduz nas mais diversas formas de abuso e negligência. A comprovar esta situação está seguramente o aparecimento de associações ligadas ao problema das crianças em risco e do respeito dos seus direitos, assim como os constantes apelos da comunicação social que, embora com carácter sensacionalista, chamam a atenção do público e do Governo para esta realidade.

Foi discutido o perfil das crianças que vivem nas nossas instituições (nas nossas casas de acolhimento), chegando-se à conclusão que estas são na sua maioria conhecedoras de experiências traumatizantes que se revelam posteriormente em comportamentos desviantes e numa ruptura total ou parcial com a família, escola, amigos e sociedade. De entre as vivências traumatizantes vividas por estes menores destacaram-se as situações de abandono por parte da família, negligência e maus-tratos sofridos, a delinquência, a precariedade habitacional, a desorganização familiar e os abusos a que são submetidos. Pela história de abandono que conheceram pessoalmente, são crianças que têm medo de falar, de olhar nos olhos, de gostar, de confiar. Vítimas de perdas emocionais, receiam envolver-se com alguém pois pensam já conhecer o desfecho. A desconfiança patente nas atitudes destas crianças dificulta muito um envolvimento técnico; no entanto, todos concordaram que deve existir um esforço para que o trabalho realizado seja encarado como um desafio que implica uma constante aprendizagem de formas de estar e de agir com crianças que se enquadram neste perfil.

As nossas “casas” surgem como respostas para as situações de crianças e jovens desprovidos de meio familiar ou cujas problemáticas justificam o afastamento definitivo em relação às famílias de origem. Este tipo de resposta social com carácter prolongado, particularmente os lares para crianças e jovens, espera-se que sejam respostas de “fim de linha”, ou seja, que constituam um recurso a deitar mão quando esgotadas todas as possibilidades de trabalho com a família de origem e com a própria criança ou jovem, no sentido de evitar cortes afectivos cujos efeitos perversos serão dificilmente mensuráveis a curto prazo.

Apesar de tudo, falou-se da família como instituição primária de interacção afectiva e de socialização das crianças, continuando a exercer a função de inserção social que a sociedade atribui a qualquer uma das suas instituições. É importante reconhecer que as famílias de origem das crianças em lares de acolhimento devem ser trabalhadas mas que, na impossibilidade de o fazer, a criança deve ter a oportunidade de preparar o seu futuro com a ajuda de todos aqueles que trabalham nesta área. Não será este afinal o nosso grande papel?"

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quinta-feira, 21 de julho de 2005

Therapeutic Approachs in Work with Traumatized Children and Young People


"Therapeutic Approachs in Work with Traumatized Children and Young People"  é uma viajem pela dinâmica emocional da Cotswold (comunidade terapêutica para crianças). Tomlinson de forma muito clara desafia-nos a pensar os problemas do dia-a-dia de uma instituição de acolhimento de crianças e jovens.

O livro aborda tópicos como autoridade, sub-culturas, delinquência, sexualidade, férias, gestão de conflitos, etc..

O livro apresenta um excelente capítulo sobre a necessidade e papel de um supervisor externo neste tipo de instituições. Fica a proposta de leitura para as férias.

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quarta-feira, 20 de julho de 2005

Método psicanalítico de observação de bebés

A Associação Portuguesa de Estudos da Primeira Infância (APEPI) é uma Associação que tem desenvolvido em Portugal o método de observação psicanalítico de bebés de Esther Bick desenvolvido na Tavistock nas últimas décadas.

Desta Associação fazem parte pessoas como Eduardo Sá, Coelho Rosa e Joana Espírito Santo. A APEPI tem um programa de formação na área da observação de bebés bastante interessante e completa, com enfoque numa compenente prática. Fica a proposta.

Mais informações em http://apepi.org.

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terça-feira, 19 de julho de 2005

Newsletter sobre comunidades terapêuticas

A Chaterhouse Group tem vindo a publicar uma newsletter sobre comunidades terapêuticas em parceria com a Association of Therapeutic Communities e a Planned Environment Therapy Trust.

Vale pena o download da newsletter e a sua leitura (clicar em http://www.pettarchiv.org.uk/jointnewsletter/12.pdf).

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Instituições de acolhimento do amanhã

Não me parece ser necessário estar recorrentemente a tentar inventar a roda. O problema de padrões de qualidade em instituições de acolhimento de crianças já foi alvo de dedicada atenção por parte de inúmeros técnicos e organizações governamentais nos diversos países ocidentais.

Partindo do princípio que a espécie humana é só uma e que as necessidades básicas de afecto que uma criança necessita para crescer são mais ou menos similares em Portugal e no resto do mundo, não percebo porque é que não começa a existir um esforço de transposição do padrões mínimos de qualidade exigidos às instituições de acolhimento de crianças no estrangeiro para a realidade portuguesa. Podem consultar os standars aqui.

Óbvio que podemos continuar a adiar o processo e a nos lamentarmos com as instituições que temos e com as suspeitas de maus-tratos e abusos institucionais. Podemos também continuar com o discurso politicamente correcto que as instituições de acolhimento de crianças são resquícios da revolução industrial, devendo ser alvo de um saneamento global, promovendo-se a todo custo a adopção ou, quando não possível, o acolhimento familiar numa lógica de tirar as crianças das mãos das más famílias para as pôr nas mãos de boas famílias. Lógica interessante esta de procurar um equilíbrio perfeito que esconde por um passo de mágica o mundo por vezes cruel, onde não está escrito em lado nenhum que uma mãe ou um pai amam todos os dias os seus filhos de forma intensa e gratuita, e que esse amor os protege incondicionalmente.

Acho que precisamos de pôr os pés no chão e olhar com atenção para o nosso mundo e realidade. Desde a Grécia antiga que o abandono de crianças existe, senão vejamos a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, onde o parricídio é antecedido por uma tentativa de filicídio. Ou mais recentemente olhemos para o séc. XIX, em Lisboa, onde um terço das crianças eram abandonadas junto da roda da Misericórdia de Lisboa ou ainda para Paris onde em 1772, de 18.713 crianças nascidas, 7676 foram abandonadas.

O infortúnio do abandono não vai abandonar a nossa sociedade; vai possivelmente transmutar-se. Hoje, como é sabido, não existe um número tão significativo de abandonos de crianças, tanto à nascença como em idades precoces. Contudo, nada nos faz pensar que tenha existido uma profunda alteração na capacidade de amar dos pais dos neonatos. O que na nossa opinião passou a prevalecer foi o abandono silencioso e contínuo perpetuado na forma de negligência, com especial destaque para a negligência emocional. Todas as estatísticas têm revelado um aumento da prevalência desta forma de mau trato senão vejamos...

Ao nível da prevalência, a negligência no universo do mau trato infantil é a forma de mau trato infantil com maior incidência. Em 1997 a negligência constituía 53% dos casos de maus-tratos infantis nos EUA (DHS, 1999 cit. Gershater-Molko, 2003). Tanner (2000), refere que no Reino Unido os casos diagnosticados de negligência superam o somatório de todas as outras formas de mau trato. Em Portugal os dados da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo (2002) revelam que 29,1% dos processos de promoção e protecção foram instaurados devido a situações de negligência. A percentagem ligeiramente menor em Portugal deve-se à grande percentagem de processos instaurados devido a absentismo e abandono escolar (26% nos dados referentes a 2001).

Cremos que nos dias de hoje as crianças abandonadas são subtilmente abandonadas e só descobertas através dos seus comportamentos pouco ajustados e por vezes desajustados das normas sociais. Delinquência, perturbações de oposição do comportamento, padrões de irrequietude motora, desmotivação escolar, depressão na segunda infância e adolescência, consumo de substâncias psicoactivas, perturbações emocionais, são só alguns exemplos de sinais de abandono.

São estas crianças subtilmente abandonadas, com vínculos disfuncionais com as famílias biológicas que lhes foram ensinando os caminhos do desamor e da solidão, que necessitam por vezes de acolhimento institucional. São estas crianças tristemente esquecidas que mais precisam de uma instituição que se constitua como espaço terapêutico onde se possa aprender a viver em comunidade ao mesmo tempo que se realiza um árduo trabalho de luto e de reparação de uma infância secretamente não vivida na solidão da habitação.

Se olharmos com atenção para estas crianças, talvez se descubra que o abandono não é dependente do status social dos pais e que crianças verdadeiramente mal tratadas e a necessitarem de um espaço contentor existem em muitas famílias aparentemente estáveis e não beneficiárias de rendimento de inserção social.

As instituições de acolhimento de crianças são realmente necessárias já não para dar de comer aos famintos, roupa aos nus e educação aos indigentes, mas sim para dar amor e limites aos abandonados emocionalmente no seio das suas famílias.

Agora tentem colocar uma criança verdadeiramente perturbada e que só aprendeu a não ser amada numa família de acolhimento ou de adopção e vejam o que acontece …. Podem ter uma grande surpresa. Só se vincula quem ainda acredita no amor e se olha ao espelho com esperança.

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segunda-feira, 18 de julho de 2005

Multidimensional Neglectful Behavior Scale - Child Report (MNBS-CR)

O MNBS-CR (Kantor et al., 2004) é um instrumento de avaliação psicológica inovador no sentido em que pretende avaliar o comportamento parental negligente através da percepção que a criança tem do comportamento parental.

A mudança de vértice na avaliação que os autores defendem parece ser interessante na medida que permite uma avaliação mais precisa sobre o impacto do comportamento negligente. Visto as necessidades das crianças variarem com a idade, os autores desenvolveram duas versões, uma para a faixa etária 6-9 anos e outra para a faixa etária 10-15 anos.

A escala é constituída por quatro subescalas centrais que avaliam: negligência emocional, negligência cognitiva (conceito próximo da negligência com a educação/estimulação), negligência física, e negligência na supervisão. De forma adicional, a escala apresenta ainda mais quatro escalas colaterais: apreciação da criança do comportamento negligente dos pais, exposição a conflitos e violência, consumo de álcool, depressão infantil.

Os autores apresentam dados de consistência interna aceitáveis para a faixa etária 10-15 anos, com o Alpha de Cronbach de 0.94 para a nota composta pelas primeiras quatro sub-escalas e 0.95 para a nota global (somatório de todas as sub-escalas). Nas sub-escalas centrais de avaliação do tipo de comportamento negligente os valores do Alpha de Cronbach variam entre 0.77 e 0.85, valores muito aceitáveis face a heterogeneidade dos comportamentos avaliados intra-subescala.

No que se refere à faixa etária dos 6-9 anos de idade, os dados quanto à consistência interna já não são tão favoráveis. O Alpha de Cronbach, nota composta das quatro primeiras sub-escalas é de 0.66 e na escala completa é de 0.69. Nas sub-escalas de avaliação do tipo de comportamento negligente o Alpha varia entre 0.29 e 0.60, valores muito abaixo do desejado. Os dados parece-nos sugerir que esta escala não parece ser adequada à avaliação na faixa etária dos 6-9 anos.

Referência Bibliográfica
Kantor, K. G., Holt, M. K., Mebert, C. J., Straus, M. A., Drach, K. M., Ricci, L. R., MacAllum, C. A. (2004). Development and preliminary psychometric properties of the Multidimensional Neglectful Behavior Scale-Child Report. Child Maltreatment, 9, 409-428.

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quinta-feira, 14 de julho de 2005

Casa das Conhas e Casa do Mar (Fundação O Século)

Muito do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no sentido de minorar os efeitos dos maus-tratos infantis tem sido realizado por instituições de acolhimento de crianças. Também é verdade que com frequência têm sido publicadas notícias alarmantes sobre algumas destas instituições.

Contudo parece-nos que vale a pena noticiar e falar sobre as boas práticas que algumas instituições têm vindo a aplicar. Uma das instituições que recentemente tivemos a possibilidade de visitar foi a "Casa do Mar" e a "Casa das Conchas" da Fundação "O Século" em S. Pedro do Estoril.

Encontrámos duas casas cheias de afecto e cuidado onde sobressai a forte possibilidade de se gerarem relações vinculativas. É verdade que só tivemos a oportunidade de uma visita breve de um dia; contudo há pormenores que nos ficam e dizem muito sobre uma casa. Senão vejamos: ao entrarmos na Casa das Conchas, um lar inaugurado num contexto particular e organizado em apenas 48h com a finalidade de acolher crianças de uma outra instituição encerrada por não reunir as melhores condições, observamos as paredes repletas de fotografias a preto e branco cuidadosamente emolduradas. As primeiras fotografias eram retratos de crianças sorridentes. Ao repararem que observávamos as fotografias, explicaram-nos que estas eram retratos dos funcionários e técnicos da Casa das Conchas. Depois seguiam-se fotografias de crianças da instituição igualmente sorridentes.

Não podemos parar de pensar que as paredes da Casa das Conchas lembravam de forma muito clara a todos que vivem e trabalham naquela casa que já foram crianças. Esta simples afirmação não verbal abre as portas ao processo de identificação que é esperada e essencial num lar. Neste sentido, o próprio espaço físico comunica com as crianças e com todos os que lá passam, lembrando que as paredes de uma casa têm ouvidos, olhos, cheiro e tacto e que sentem o crescer das crianças. Parabéns Casa das Conchas e Casa do Mar!

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segunda-feira, 4 de julho de 2005

Dia Aberto no Lar dos Rapazes da SCMS

O sistema de protecção de crianças em perigo, em especial o acolhimento de crianças em instituição, está na ordem do dia. A imprensa tem divulgado um conjunto de histórias inquietantes e alarmantes sobre as nossas crianças que vão desde o abuso e maltrato institucional ao abuso e maltrato familiar. Esta dupla polarização família de risco e instituição perigosa tem despertado na sociedade um sentimento de incredibilidade e de paralisia. Sentimento que, na minha opinião, não tem sido facilitador na construção de um quadro de referência que permita pensar e entender o fenómeno violento que vimos observando.

Neste sentido a Santa Casa da Misericórdia de Santarém (SCMS) endereçou um convite para reflexão a um conjunto de instituições congéneres com o título “Dia Aberto”.

O título da iniciativa pretendia ser uma preconcepção não saturada de forma a desempenhar a função de quadro em branco à espera de ser preenchido por ideias, crenças, sonhos e pensamentos de técnicos à espera de serem pensados em grupo.

E assim foi. Numa primeira a fase o grupo centrou-se sobre a interrogação “Que crianças são estas que acolhemos todos os dias?”. A caracterização dividiu-se inicialmente em dois eixos:
i) o que lhes tinha acontecido para sem acolhidas;
ii) e quais as características comportamentais e psicopatológicas que apresentam.

Referente ao primeiro eixo, existiu uma unanimidade em torno das situações contextuais que levam nos dias de hoje as crianças a serem retiradas do seu meio natural: maltrato físico e emocional, abuso sexual, negligência física, negligência emocional, exposição a contextos de violência familiar e de extrema desorganização.

A análise do segundo eixo levou, por um lado, à descrição de quadros psicopatológicos recorrentes nesta população, como seja a perturbação de hiperactividade com défice de atenção, a perturbação de comportamento de oposição e a estruturação de personalidades estado-limite, e por outro lado a indicar alguns elementos de personalidade que parecem frequentemente alterados como seja a tolerância à frustração, a capacidade de fazer lutos, e a capacidade de verbalizar as emoções.

Em síntese, concluiu-se com alguma facilidade que nos são confiadas crianças pouco integradas, que nos mostram todos os dias através dos seus comportamentos e atitudes uma identidade pouco coesa, com dificuldade em estabelecer vínculos e relações reparadoras das experiências de privação precoce.

Numa segunda fase o grupo migrou a sua discussão para a questão “Qual o papel das nossas instituições: orfanatos vs colégios?”.

No modelo actual de protecção de crianças é politicamente correcto afirmar que a instituição é a última resposta de protecção e que as instituições são um mal menor. Assim, o modelo antigo das famílias se dirigirem directamente às instituições de acolhimento com a finalidade dos seus filhos serem acolhidos findou sobre a égide do argumento que é necessário responsabilizar a família pela educação dos seus filhos. Neste sentido, diversos técnicos fizeram saber da sua revolta e falta de compreensão pelas famílias que encaram a instituição como um colégio onde os filhos estão durante a semana para receberem educação. Famílias que parecem desta forma esconder a sua disfuncionalidade atrás da ideia romântica de terem os filhos a estudar num bom colégio. A quebra deste romantismo levou-nos a recuar dois séculos para o imaginário inglês de Charles Dickens e para os orfanatos em torno de Manchester. Casas de abandono despidas de qualquer humanidade. Criandários ou hospícios para enjeitados era o nome pelo qual estas instituições eram conhecidas em Portugal. A polarização entre a ideia de colégio desresponsabilizante para os pais e a ideia de hospício de enjeitados altamente estigmatizante para a família, fez o grupo reflectir sobre qual deve ser o espaço a ocupar pelas instituições de acolhimento do século XXI.

Um dos elementos do grupo face à dificuldade de posicionar as instituições no contínuo acima descrito, defendeu que as instituições são simplesmente uma CASA.

O grupo passou então a reflectir sobre que casa é que todos queremos. Foi-se concluindo que a casa teria de ter no mínimo quatro paredes, e que estas deveriam ser seguras e revestidas de afecto, de amor. A casa deveria ter igualmente um telhado vermelho e sólido, vermelho porque todos os telhados são vermelhos no imaginário das crianças. No telhado deve existir uma chaminé onde todos os dias sai fumo branco ao fim da tarde. O fumo branco é o resultado da esperança que é cozinhada na habitação. Na parte da frente da casa devem ser colocadas duas ou mais janelas, as suficientes para que todas as crianças tenham sempre um lugar à janela. É importante olhar o mundo a partir de casa. Ainda na parte da frente da edificação deve ser colocada uma porta com uma campainha. A campainha sempre que toca lembra toda as pessoas de casa que existe um dentro e um fora, e que existem pessoas que chegam e que partem. Ao longe, ao olharmos da casa, deve ser visível uma estrada, que pode ser longa e afunilada, mas sempre tratada, que une a nossa casa a uma outra lá no passado. Este caminho, por vezes, só é visto ao longe ou de avião, mas deve ser lembrado e cuidado diariamente. Senão for tratado, o caminho pode estar disfarçado pelas urzes que tendem a crescer em redor. Ninguém no grupo foi capaz de explicar porque é que os terrenos à volta destes caminhos são sempre férteis para as urzes; contudo houve unanimidade em torno da ideia de limpeza e cuidado diário do caminho.

O grupo acabou por concluir que na vida das crianças acolhidas existem sempre pelo menos três casas: a casa da família biológica, a casa de acolhimento e a casa sonhada. A casa sonhada é sem dúvida a mais importante e a que precisa de ser mais conservada senão na cabeça das crianças, pelo menos na cabeça dos adultos que olham por elas.

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