CriançaSemRisco

domingo, 29 de janeiro de 2006

Autoridade e crianças em risco acolhidas

É frequente por parte de monitores de instituições de acolhimento de crianças em risco o comentário que as crianças e o jovens fazem o que querem, não conferindo autoridade aos adultos. Esta queixa mais complexa fica quando todos temos bem presente que o problema não se resolve através de uma cultura de autoritarismo baseada na acção física musculada ou pela disseminação de ideias terroríficas do tipo “se não nos ouves é que ficas mesmo abandonado”. Então que solução? Que caminho a tomar?

As crianças acolhidas, na sua grande maioria, são crianças em risco, isto porque a sua história está povoada por momentos de desencontro. Momentos que projectam uma sombra cinzenta sobre o estabelecimento de relações seguras e emocionalmente ricas. Estas crianças não tiveram na sua grande maioria alguém que as ensinasse a ler os seus afectos e a dinâmica emocional de uma relação. Neste sentido, são crianças desencontradas onde o vínculo é interpretado mais como grilhão do que como laço que liga duas histórias. O grilhão que prende, lembra o carcereiro e introduz a desconfiança como cultura relacional. O homem que nos dá a comida, é o mesmo que nos lembra que estamos presos. Situação que se agrava no olhar do carcereiro que não assumindo o seu papel, se desculpa pela cruel imposição de regras de que ele mesmo é alvo.

O carcereiro frequentemente, para se defender da violência do seu papel, coloca os seus actos nas mãos de um chefe ou de um rei, oferecendo-se assim como mero cumpridor de ordens sem qualquer autoridade e, por isso, inocente. Defendendo-se, revela-se como despejado de autoridade e de poder. Vemos como é o próprio guarda que se coloca numa posição de fragilidade para se defender das suas próprias emoções, baixando a guarda e desviando-se da sua tarefa. E assim a criança não vê autoridade porque ela não está lá.

Repor a autoridade passa então por assumir um papel e uma função, bem como a possibilidade de assumir que a diferença depende do próprio. O monitor deve ser apoiado no seu papel de decisor, de líder, de forma a se oferecer à criança como adulto que traça um caminho passível de ser alvo de identificação.

Neste caminho devemos ter sempre claro que ninguém se identifica aos fracos que não têm vontade.

PVS