CriançaSemRisco

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Todos diferentes


Esta é uma imagem bem clássica sobre o que são os refeitórios das grandes instituições de acolhimento de crianças.

A massificação no início do século já não tem lugar nos dias de hoje. A Internet e os telemóveis, a troca rápida de informação, alterou o viver adolescente, sendo que cada vez mais existe um sublinhar da diferença e da especificidade de cada um.

É esta diferença de cada um, de cada adolescente, que deve ser alvo de atenção pelos adultos que cuidam delas.

PVS

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Casas frias, sonhos perdidos


Muitos dos lares de crianças e jovens são casas frias, onde se coleccionam sonhos perdidos. É urgente aquecer estas casas com calor humano.

Não faz mais sentido ter casas com 50 ou 70 crianças para meia dúzia de adultos... Nunca fez. Nunca fará.

PVS

Os tempos das crianças em risco

"Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable."

In Four Quartets by T.S. Elliot.

PVS

Seis perguntas!!

Seis perguntas que se devem colocar para obtermos uma definição clara sobre o papel das instituições de acolhimento de crianças.

  • Quem são as crianças que nós pretendemos ajudar?
  • O que é que aconteceu a essas crianças?
  • Qual foi o impacto nas crianças das experiências precoces?
  • Como é que as crianças exprimem esse impacto no presente?
  • O que é que tentamos fazer com, e para elas, no momento do acolhimento?
  • Para que fim e resultado nós realizamos este esforço extraordinário?
PVS

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Crianças que não brincam na fantasia

Os acontecimentos recentes de violência envolvendo jovens no Porto são acima de tudo sintoma de uma política de protecção de infância pouco eficaz e desligada da saúde mental. Não basta pensar que dar um tecto, alimentação e permitir o acesso ao ensino básico a uma criança em risco chega para a proteger e levá-la a um bom desenvolvimento. É necessário um olhar mais técnico, pormenorizado, e que leve em conta o desenvolvimento e estruturação da personalidade da criança.
Qualquer criança em risco é uma criança que num determinado momento da sua vida viu o seu vínculo com os pais ameaçado ou quebrado. Viu igualmente a estabilidade da família ameaçada por histórias de abuso e negligência que sedimentam na criança a fantasia de que nenhum lugar é seguro. Estas crianças crescem a margem do amor e da segurança emocional, crescem sem conhecer um espaço onde se possa brincar aos polícias e ladrões, sem ninguém verdadeiramente morrer.

São estes os jovens que quando amontoados, aos 50 e 70, numa instituição de acolhimento, se perdem. Não se encontram enquanto pessoas adultas responsáveis com capacidade de reflectirem nos seus comportamentos. Permanecem imaturos, brincando aos polícias e ladrões, justiceiros de rua, com armas e pontapés de verdade.

Estas crianças não brincam na fantasia, brincam na realidade, e por isso magoam-se e magoam de verdade, lembrando que outrora alguém as feriu na fantasia.

PVS

Comichão

Começa a dar algum comichão a forma como se fala das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo.

As CPCJs não são entidades mágicas que resolvem todos os problemas da infância. Não servem para isso.

PVS

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Comentário ao comentário da Joana Cerdeira

"Olá.

Deparei-me com o blog e de facto a promoção e protecção dos direitos das crianças e jovens em risco é um tema que muito me interessa. Sou psicóloga de formação, mãe de corpo e alma e os maus-tratos às crianças são algo que me indigna profundamente, que mexe com o mais profundo da minha existência. Tenho tentado ingressar numa CPCJ de forma justa e lógica - ou seja, remunerada pelo meu trabalho e gostava de lhe colocar uma questão.

As denúncias não terão um andamento mais eficaz se feitas directamente junto da CPCJ? Num país em que os tribunais se encontram atolados de trabalho, em que processos prescerevem por não serem analisados a tempo, ao menos as CPCJs sempre vão analisando (ainda que por vezes de forma deficitária) os casos concretos...

Joana"


Em parte tenho que concordar com comentário feito pela leitora Joana. Pelo menos nas CPCJs normalmente vai-se falando e tentando resolver algumas situações. Contudo, não devemos confundir competências.

As CPCJs não são órgãos de investigação criminal, nem trabalham à luz do código penal nem do código de processo penal, e por isso não podem e nem têm competência para realizarem inquéritos sobre crimes. Por exemplo, só num âmbito de um processo crime se pode afastar o agressor da residência da vítima ou aplicar outra medida cautelar sobre o agressor que ponha termo à situação de violência.

As CPCJs trabalham enquadradas pela Lei de Promoção e Protecção, o que pressupõe o consentimento dos pais ou detentores do poder paternal, ou guarda de facto da criança, e não oposição do menor quando este tiver mais de 12 anos. Esta intervenção pressupõe ainda a celebração de um acordo de promoção e protecção com base numa das seguintes medidas: a) apoio junto dos pais, b) apoio junto de outro familiar, c) confiança a pessoa idónea, d) apoio para a autonomia de vida, e) acolhimento em família de acolhimento, f) acolhimento em instituição ou g) acolhimento em instituição ou em família seleccionada com vista à futura adopção. Como se pode constatar, nenhuma destas medidas visa afastar o agressor da vitima. Por isso mesmo a Lei de Promoção e Protecção diz no seu artigo 70º que sempre que as CPCJs tenham notícia de um facto qualificado como crime contra um menor têm obrigatoriamente de o comunicar ao Ministério Público.

Quanto ao desejo da Joana de vir a integrar uma CPCJ, espero que seja concretizado em breve.

PVS

Maus-tratos a crianças são crime público

Devemos todos ter consciência que os maus-tratos a crianças são crimes públicos, por isso autónomos de queixa, podendo caber a iniciativa processual ao Ministério Público.

Sendo assim, sempre que alguém tem notícia de um crime de maus-tratos deve comunicar ao Ministério Público ou às entidades policiais.

Óbvio que também se deve ou pode-se comunicar às CPCJs, mas a prioridade deve ser as entidades com responsabilidades em matéria de investigação criminal.

PVS

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

O ciclo da violência (Expo Criança 2006)

A Expo Criança 2006 será palco de uma conferência subordinada ao tema “O Ciclo da Violência”.
Promovida em conjunto com a Câmara Municipal de Santarém, esta iniciativa procura ir ao encontro de questões relacionadas com situações de violência sobre crianças.

Assim, no dia 15 de Março a partir das 9h30 este tema será abordado pelo oradores de renome como Laborinho Lúcio, Maria José Gamboa, Moita Flores e Ana Paula Almeida. “A familia, sede de segurança e dos afectos”, “Intervenção em Famílias/Crianças de Risco” e “Pais Maltratados/Famílias em Risco” são os tópicos para uma discussão sobre um dos temas que mais preocupa actualmente a sociedade portuguesa.

PVS

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

STOP para PENSAR!

Trabalhar numa instituição de acolhimento de crianças em risco cria por vezes nos funcionários a ideia de que muito tem de ser feito com urgência. A eficácia implica à primeira vista a tomada de acções e de decisões de forma a conter de imediato qualquer situação problemática. Contudo, há uma competência que é imprescindível em qualquer pessoa que trabalhe neste contexto, a competência de NÃO FAZER.

Isto é, a capacidade de não tomar uma acção, de conter a ansiedade e a pressão que levam à tomada de decisão. Não tomando uma atitude, a pessoa fica ditada às suas dúvidas, à sua capacidade de suportar a incerteza e a dor de não saber dar resposta. Aí, nesse espaço, inaugura-se o espaço da reflexão e do pensamento criativo. Um psicanalista inglês, W.Bion, sublinhou esta competência como CAPACIDADE NEGATIVA.

A capacidade negativa é a porta para a reflexão e é a chave para quebra da ligação patológica de acção – reacção sem pensamento.

PVS

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

A sala com dez portas

Numa instituição de acolhimento de crianças existia uma sala com dez portas. A sala destinava-se a momentos calmos de conversa com as crianças ou a trabalho administrativo da equipa técnica. O objectivo das dez portas era aumentar a funcionalidade da sala e o acesso rápido aos diversos corredores da instituição. A sala situava-se no centro dos nove corredores da instituição, todos eles ladeados por quartos com nove crianças. A posição central da sala permitia que pelo menos uma porta de acesso era vista em todos os pontos da casa.

Numa reunião de consultoria, os técnicos que habitavam a sala das dez portas queixavam-se que não era possível ter uma conversa calma na sala. Quando mais do que uma porta da sala estava aberta, era um entre e sai de miúdos. Quando as portas se fechavam, sentia-se a pressão do lado de fora das crianças batendo e empurrando insistentemente as portas. Os técnicos reflectiam onde estariam os funcionários durante aqueles momentos de corrupio ou de pressão junto às portas. Ao mesmo tempo que iam verbalizando estas dúvidas, crescia na reunião com o consultor um sentimento de impotência e de incapacidade de mudar a dinâmica funcional da casa.

O consultor perguntou aos técnicos para onde abria a décima porta. Foi explicado que esta dava directamente para a rua. Contudo raramente era aberta, destinava-se a situações de emergência e de evacuação.

Após um longo silêncio...

O consultor teve o seguinte pensamento.
Porque será que os técnicos não se abstêm de se manter no centro da casa e da vida das crianças, guardando junto deles a chave de um sonho chamado “rua”.

Os técnicos intrigados pelo pensamento, responderam prontamente que quando chegaram à instituição esta já tinha aquela arquitectura e que era muito difícil mudar a arquitectura (o mesmo será dizer... mudar a cultura da organização).

O consultor sugeriu abrir no extremo oposto de cada corredor uma nova porta, que desse para a rua. Estas seriam abertas periodicamente e por um bom motivo. As chaves dessas portas seriam entregues aos funcionários. As regras de abertura seriam discutidas por todas as crianças e adultos numa reunião semanal.

A equipa técnica aceitou o desafio…

Algum tempo depois, numa nova sessão de consultoria, um elemento dessa equipa fez a seguinte afirmação.

"Sinto-me só, acho que já não sou importante na casa."

PVS

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Pobres recursos humanos

A selecção e recrutamento de auxiliares de acção educativa para instituições de acolhimento de crianças é uma tarefa de muitíssima paciência. O esforço é encontrar pessoas com perfil para a função (i.e. com inúmeras capacidades pedagógicas) com um ordenado próximo do mínimo. Pede-se disponibilidade, paciência, capacidade de entrega, associada a competências elevadas em gestão de conflitos, bem como conhecimentos em modelos de intervenção pedagógica / educativa, consentâneos com os modelos da Psicologia do Desenvolvimento.

Assim sendo, na verdade, não se encontra ninguém nos processos de selecção. Na melhor das hipóteses... meia dúzia de gatos-pingados! Resta então neste cenário exercer uma selecção às cegas.

Às instituições que têm a qualidade como uma meta, e que não podem aumentar os vencimentos, resta uma forte aposta na formação e na supervisão das equipas.

Não tenhamos dúvidas que se não for realizado um forte esforço na formação, então vamos continuar a ter instituições pouco eficientes, onde o mau trato infantil se perpetua.

PVS

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Outsourcing nos lares de crianças em risco

Muitos dos lares de crianças e jovens têm feito um esforço de reestruturação, procurando maiores índices de eficácia. E neste sentido, com frequência encontramos instituições que apostam na:

  • centralização dos serviços de cozinha ou outsourcing da alimentação, recorrendo a empresas de catering;
  • centralização dos serviços de lavagem e engomadoria de roupa ou outsourcing recorrendo a empresas de lavandaria;
  • centralização dos serviços de logística e reparação;
  • entrega da limpeza e higiene da casa a serviços de limpeza centrais ou adjudicação do serviço a empresas de higiene e limpeza.

Nesta lógica as instituições melhoram possivelmente a eficácia (relação qualidade/preço), aproximando-se de uma lógica de hotelaria onde a criança/cliente vê tudo à sua volta ser provido por um exército de funcionários sem nome. Estas instituições de 5***** esquecem-se que a missão (primary task) de uma instituição que acolhe crianças em risco em regime prolongado é ensinar as rotinas e a organização de uma casa, de forma a dar às crianças e jovens ferramentas para a uma futura autonomia.

Na lógica acima descrita fica a ideia que as instiuições estão a ensinar a realizar outsourcings e divisão do trabalho. Talvez almejem a construção de uma geração de futuros gestores hoteleiros. Afinal, o Turismo é uma da áreas em crescimento na nossa economia.

PVS

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Notícias sobre adopção e centros de acolhimento

Sairam no passado dia 7 duas relevantes notícias no jornal Público, uma sobre o lançamento do Observatório da Adopção que terá como missão fazer um diagnóstico e propor alterações a introduzir nos mecanismos de adopção de crianças em Portugal, e outra sobre o aumento do número de centros de acolhimento.

A criação do Observatório deverá ser hoje anunciada na Amadora pelo ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, José Vieira da Silva.

Por outro lado, o Governo quer criar mais 300 centros de acolhimento para crianças em risco até 2009, elevando de 1800 para 2100 o número de vagas em todo o país, anunciou hoje o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social que, em parceria com o Ministério da Justiça, está a preparar o lançamento do Observatório.

Num país onde muito se anuncia e onde tantos institutos existem, é melhor esperar para ver os resultados práticos destas medidas que aparentam ser positivas.

Espero que a reflexão e discussão sobre como prestar cuidados as crianças e jovens em centros de acolhimento seja uma das próximas medidas anunciadas neste jornal. Principalmente sobre como transformar centros de acolhimento em verdadeiros centros terapêuticos, com base nos princípios descritos no post anterior sobre comunidades terapêuticas. O papel terapêutico, mais do que entregue a alguns profissionais, deve ser desempenhado pela instituição per se.

TSM

Comunidades terapêuticas: O que são?!

Na sequência das referências que tenho feito neste blog a comunidades terapêuticas para crianças, diversos leitores têm levantado algumas questões sobre o que são estas comunidades. Lares para crianças doentes? Instituições idênticas às comunidades terapêuticas para toxicodependentes? Residências protegidas?

Comunidades terapêuticas são instituições que visam um ethos de desenvolvimento / aprendizagem através do meio social e das tarefas da rotina diária. Sublinhado-se sempre a capacidade de pensar os conflitos.

Neste sentido uma comunidade terapêutica é:
1. um grupo de pessoas que vivem juntas, se reúnem frequentemente e participam juntas num conjunto de tarefas terapêuticas, domésticas, organizacionais e educativas;
que podem ter,
2. relações próximas, informais e não hierárquicas;
e
3. partilhar regularmente informação entre todos os membros do grupo;
sendo que entre elas existe
4. um compromisso sobre o objectivo de aprender pela experiência de viver e trabalhar em conjunto;
que se aprofunda pela
5. ideia de que os problemas, as tensões e os conflitos do grupo são explorados e analisados numa cultura democrática, de forma a se encontrarem soluções negociadas.
A prática assenta num
6. modelo teórico que informa e dá compreensão sobre os processos mentais individuais e de grupo.
Exige-se
7. uma clara definição dos limites de tempo, espaço e papeis, nos quais os processos acima descritos ganham forma.

Uma comunidade terapêutica é mais do que tudo um modelo de organização da vida comunitária que pode ser aplicada em vários contextos. Assim, o acolhimento prolongado de crianças em risco poderia progressivamente se transformar em modelos de comunidade terapêutica.

PVS

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Transfoming hate to love


"Transforming hate to love: An outcome study of the Peper Harow treatment process for adolescents" de Melvyn Rose é um óptimo livro sobre comunidades terapêuticas de adolescentes e retrata o trabalho realizado na Peper Harow Foundations (Childhood First).

Vale muito a pena para quem trabalha em lares com adolescentes ou em centro educativos.

Consultar aqui.

PVS

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Checklists e grelhas de observação

Uma das coisas que mais me surpreende no campo do acolhimento de crianças é a ausência de procedimentos técnicos comuns às CPCJ.

É verdade que existem poucos instrumentos de avaliação disponíveis em Portugal, e muitos vezes não estão actualizados. No entanto, a ausência de intrumentos adaptados não é o único problema. O que é gritante é a inexistência de “guidelines” de actuação e de observação nas visitas domiciliárias. Quando um técnico faz uma visita domiciliária deve saber o que “procura” nessa visita. Ou seja, os indícios de negligência a observar, o comportamento exibido pela criança, interacção desta com os pais, etc.

Seria interessante criar-se uma “check-list” de items a observar e/ou grelhas de observação que deveriam ser comuns para o país inteiro. Isto tudo para que as avaliações não dependam essencialmente do bom senso dos técnicos (como foi referido neste blog no post “Técnicos do IRS”), mas que possam ser feitas com bases em critérios técnicos.

Fazer apenas uma visita e trocar duas ou três palavras com a família não é suficiente. Cada vez mais é preciso ter uma ideia geral do objectivo das visitas e passar a fazê-las de forma pensada.

TSM

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

III Colóquio Europeu de Psicologia e Ética

ISPA irá receber no dia 9 e 10 de Março o III Colóquio Europeu de Psicologia e Ética, tendo definido os seguintes objectivos:

  • reflectir sobre a ética na prática e na investigação em Psicologia;
  • debater com profissionais, investigadores e criadores de outras áreas que relevam do humano sobre o modo como a Ética se cruza com o conteúdo e as formas do seu pensamento, intervenção e produção;
  • enfatizar, à luz das premissas sobre a evolução humana, a dimensão inter-subjectiva, as vivências e manifestações emocionais;
  • contribuir para uma reflexão crítica sobre alguns dos problemas do nosso tempo, a partir do cruzamento de olhares, da diversidade profissional e cultural;
  • estimular, através da criação de lugares de pensamento e de palavra, uma ética do debate, construção e produção do conhecimento.

Mais informações em http://www.ispa.pt/etica/coloquio_index.html.

PVS